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sexta-feira, 29 de maio de 2009

O primeiro campeonato do Brasil

Realizado no Rio de Janeiro, Campeonato Sul-Americano de 1919 contagiou todo o país e fez nascer no brasileiro a paixão pelo futebol

Rafael Cardoso Rio de Janeiro


A primeira geração vitoriosa da seleção brasileira, campeã do Sul-Americano há exatos 90 anos

Recordista de títulos mundiais, a seleção brasileira de futebol hoje impõe respeito em qualquer gramado que pise neste planeta. A camisa verde e amarela, imponente com as suas cinco estrelas bordadas, é um verdadeiro patrimônio nacional. Muitos dos que se orgulham deste passado glorioso, no entanto, desconhecem que foi preciso muita luta e suor para que o "team brasileiro" se consolidasse no cenário futebolístico. Os primeiros passos foram dados há exatos 90 anos com a conquista do Campeonato Sul-Americano, primeiro título de grande relevância da seleção. O dia 29 de maio de 1919 foi o pontapé inicial de uma das trajetórias mais vitoriosas do esporte mundial.

O futebol começou no país como uma forma de entretenimento das elites. Trazido pelos ingleses para o Brasil, era prioritariamente disputado em clubes fechados, onde apenas sócios tinham acesso. Aos poucos, foi ampliando o número de seus admiradores, mas a carência por ídolos e títulos freava o aumento de sua popularidade. A competição de 1919 rendeu os ingredientes necessários para que os brasileiros o escolhessem como uma de suas principais paixões. Primeiro torneio de nível internacional realizado em solo brasileiro, abriu caminho para a democratização do esporte. O troféu de campeão conquistado sobre o poderoso Uruguai foi um prêmio também para o público, que demonstrou muita empolgação ao longo de todo o campeonato.


As origens da febre futebolística

O uniforme utilizado pelo Brasil em 1919

Em uma triste coincidência, assim como o mundo enfrenta hoje uma epidemia de gripe, também na segunda metade da década de 10 uma gripe fez grandes estragos no cotidiano da população. A chamada "febre espanhola" trouxe prejuízos também para o esporte. O calendário do futebol foi alterado em 1918, porque a situação era muito crítica. A terceira edição do Campeonato Sul-Americano, que já havia sido disputado em 1916 e 17, teve de ser adiada para 1919, quando o quadro era um pouco mais ameno.

O brasileiro em 19 convivia ainda com um ambiente político desfavorável, em um período conhecido como República Velha. Denúncias de corrupção, fraudes eleitorais e favorecimentos às classes mais ricas eram constantes. A população encontrou na seleção brasileira de futebol uma maneira de se sentir representada de forma democrática, principalmente porque os jogadores eram de diferentes classes sociais. Uma vitória daquele time simbolizava a vitória do povo. O jornal "A Rua", na edição do dia 7 de maio, traduziu o sentimento que envolvia os preparativos da competição, responsável pelo "esquecimento" da gripe espanhola.

"Antes do campeonato, o football aqui já era uma doença: agora é uma grande epidemia, a coqueluche da cidade, de que ninguém escapa".


Evento esportivo contagia a Cidade Maravilhosa

O Rio foi contagiado pelo ambiente futebolístico, e o estádio das Laranjeiras ficou lotado

O estádio das Laranjeiras, na sede do Fluminense, foi especialmente construído para a realização do Campeonato Sul-Americano. Quando as delegações de Chile, Argentina e Uruguai desembarcaram de navio na Praça Mauá (Rio de Janeiro), já havia um palco estruturado para recebê-los. A equipe brasileira estava concentrada para o início da competição, apostando em craques como o goleiro Marcos de Mendonça e os atacantes Friedenreich e Neco. No comando técnico, uma comissão improvisada pelos jogadores Amílcar Barbuy e Arnaldo Silveira (capitão), além de Mário Pollo, Affonso de Castro e Ferreira Vieira Netto. O dia 11 de maio marcou a estreia da seleção brasileira e do estádio. Não poderia ter sido melhor: 6 a 0 sobre o Chile, com direito a três gols de Friedenreich.

Relatos e fotos da época dão conta de que o estádio estava lotado durante todas as partidas. Cerca de 18 mil pessoas cabiam confortavelmente nas arquibancadas. Os homens trajavam elegantes ternos e chapéus, as senhoras usavam seus melhores vestidos e adereços. Do lado de fora, uma multidão - que não tinha condições de pagar pelo caro ingresso - tentava ver a partida, subindo no morro das Laranjeiras ou se aglomerando próximo à redação do "Jornal do Brasil", na Avenida Rio Branco (Centro da cidade), à espera do resultado. Independentemente do local em que estavam, todos puderam comemorar a segunda vitória, 3 a 1 na Argentina, no dia 18 de maio. Um novo show de bola da seleção.

Como os uruguaios também haviam vencido os seus dois primeiros jogos, o duelo contra os brasileiros no dia 25 de maio era uma verdadeira final. A equipe celeste jogou de luto pela morte do goleiro Roberto Cherry. Uma semana antes, o arqueiro havia se chocado contra um jogador na partida contra o Chile e precisou fazer uma cirurgia, mas não resistiu. Apesar disso, o time adversário não perdeu o ânimo e chegou a abrir 2 a 0 no placar. Mas graças a Neco, o primeiro grande ídolo da história do Corinthians, o Brasil arrancou o empate heróico em 2 a 2. Como na época não havia decisão por pênaltis, uma segunda partida foi marcada para o dia 27 de maio.


Tabela de jogos Classificação
11/5 Brasil 6x0 Chile Seleções Jogos Vitórias Empates Derrotas
11/5 Uruguai 3x2 Argentina Brasil 4 3 1 0
18/5 Uruguai 2x0 Chile Uruguai 4 2 1 1
18/5 Brasil 3x1 Argentina Argentina 3 1 0 2
25/5 Argentina 4x1 Chile Chile 3 0 0 3
25/5 Brasil 1x1 Uruguai
29/5 Brasil 1x0 Uruguai


A final mais longa da história: a batalha sul-americana

Brasil e Uruguai fizeram ótimo duelo na final

O futebol brasileiro ainda era uma incógnita naqueles tempos. O Uruguai era a potência do continente e reconhecido como uma das melhores equipes do mundo. Afinal, era o atual bicampeão sul-americano, derrotando o Brasil nas duas edições anteriores do campeonato. E seria bicampeão olímpico em 1924 e 28. A expectativa pela revanche era grande. Nenhum brasileiro queria perder novamente. O mundo passava por um momento de exaltação dos nacionalismos, e o duelo ultrapassava as quatro linhas. Os jornais brasileiros sabiam que o novo confronto, mesmo no Rio de Janeiro, seria uma verdadeira batalha.

Desde das 11h daquela quinta-feira, três horas antes da partida, muitas bandeiras eram vistas pelos morros adjacentes. O governo decretou ponto facultativo nas repartições públicas. Bancos e casas comerciais também fecharam as portas. Não se falava de outro assunto na cidade. Veio então a partida, embelezada pelo surpreendente número de senhoras nas arquibancadas, muito maior do que nos jogos anteriores. Durante os 90 minutos regulamentares, nada de gol. A partida foi para a prorrogação. Após 30 minutos, o placar continuava zerado. Os torcedores estavam tensos nas arquibancadas, os jogadores estavam exaustos em campo.

Foi preciso uma segunda prorrogação de mais 30 minutos. E foi aí que o artilheiro Friedenreich fez a diferença. Aos 3 minutos, Neco correu pela direita e lançou a bola para a área. Heitor recebeu e arriscou o chute, espalmado por Saporiti. A bola caiu nos pés do goleador brasileiro, que chutou à meia altura: 1 a 0. A torcida foi ao delírio nas arquibancadas. De tão marcante, aquele momento histórico virou até música. Foi eternizado por Pixinguinha em um chorinho que teve como título o placar do jogo: "É a bola, é a bola, é a bola / É a bola e o gol! / Numa jogada emocionante / O nosso time venceu por um a zero / E a torcida vibrou." Após 150 minutos de disputa, o Brasil erguia a sua primeira taça de expressão. Estava plantada a semente para um futuro grandioso.

Lula e o PT abrem o Brasil a terroristas

Na Folha de São Paulo nesta quinta-feira. Comento abaixo:

Investigações da Polícia Federal sobre a atividade do libanês K. chegaram à conclusão de que ele tem ligações com a organização terrorista Al Qaeda.K., acredita-se, é o responsável mundial pelo "Jihad Media Battalion", uma organização virtual que é usada como uma espécie de relações públicas on-line da Al Qaeda, propagando pela internet, em árabe, ideais extremistas e incitando o povo muçulmano a combater países como os EUA e Israel. Para a PF, K. não é membro da alta hierarquia da Al Qaeda.

De São Paulo, sempre segundo a avaliação da cúpula da PF, o libanês mantinha contato com pessoas ligadas à organização terrorista em pelo menos quatro países, um deles da Ásia.

Sua função não estava ligada ao braço armado da organização, mas a PF suspeita de que ele tenha tratado, em discussões pelo fórum, de alvos potenciais de atentados, chegando a distribuir tarefas a outros membros da organização.

Segundo as investigações, K. agia só, o que descarta, portanto, para as autoridades, a participação de algum brasileiro.

Nas intercepções feitas pela PF, o libanês foi flagrado dizendo ser integrante da Al Qaeda, que tem como líder máximo Osama bin Laden, o terrorista mais procurado do planeta.

As autoridades brasileiras foram informadas da atuação do libanês em fevereiro, em informações repassadas pelo FBI, o equivalente norte-americano da PF. Na ocasião, o FBI já tinha a identificação do IP do computador de onde o libanês coordenava a rede.

O advogado do libanês, Mehry Daychoum, diz que houve "confusão" e "precipitação" da PF e nega relação de seu cliente com qualquer organização "paramilitar ou terrorista": "Ele cometeu a infelicidade de emitir comentários na internet, jamais imaginando que isso pudesse ser crime no Brasil".

Na edição de terça, o colunista da Folha Janio de Freitas informou que um integrante da alta hierarquia da Al Qaeda tinha sido preso no Brasil. Para preservar o sigilo da operação, escreveu o jornalista, a PF atribuiu a prisão a uma investigação sobre células nazistas.

O ministro Tarso Genro (Justiça) disse que o governo não trabalhava com a hipótese de K. ter relações com a Al Qaeda. O presidente Lula demonstrou irritação ao falar do caso.

Segundo disseram à Folha autoridades brasileiras, o governo queria manter sob sigilo a suspeita da ligação de K. com a Al Qaeda, principalmente por causa da pressão internacional.

Por isso sua prisão foi divulgada como consequência de uma suposta "propagação de mensagens com conteúdo racista pela internet", segundo a nota da PF. O libanês foi indiciado por crime de racismo.

Autoridades americanas têm pressionado o Brasil por não haver em lei a tipificação do crime de terrorismo. Para Tarso, não é preciso mudar a legislação, pois atos terroristas podem ser enquadrados nas leis comuns. O debate já chegou a ser travado no Ministério da Justiça. Mas a preocupação do governo é que a criação de uma lei desse tipo possa criminalizar movimentos sociais.

K. vive no Brasil com a mulher e filha, ambas brasileiras. Detido em 25 de abril, ele passou 21 dias preso por ordem do juiz da 4ª Vara Federal Criminal, Alexandre Cassettari. Agora, mesmo em liberdade, o libanês segue sendo monitorado.

Em nota, a assessoria da Justiça Federal disse que a investigação da PF apontou indícios de que K. atuava como membro da "organização extremista" Jihad Media Battalion, além de ter ligações "com outros grupos". Segundo a Justiça, "as diligências policiais constataram, também, a associação de aproximadamente 34 membros cadastrados, o que caracterizaria a formação de quadrilha". O Ministério Público ainda não decidiu se oferecerá denúncia contra K.

Ontem, a Comissão de Segurança Pública da Câmara aprovou requerimento que convida representantes da PF e da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) para discutir a prisão de K -com data a ser definida. (Da Folha de São Paulo desta quinta-feira)

MEU COMENTÁRIO: Quem acompanha este blog sabe que em inúmeras oportunidades tenho denunciado que aqui em Florianópolis e outras cidades brasileiras cada vez mais se encontra nas ruas mulheres com véus na cabeça. E sempre afirmo que não se pode é identificar os seus maridos, que não têm a coragem (por enquanto) de andar com aquelas toalhas na cabeça, ou preferem o anonimato.

O que se verifica é a invasão do Ocidente pelo islamismo, religião que dá suporte ao terrorismo internacional, que comete atentados com homens-bomba e mulheres-bomba, que pratica o antissemitismo, que deseja aniquilar Israel e que, por fim, deseja dobrar o Ocidente à islamização.

O que deixa a Nação pasma é Lula e seus sequazes fazerem vistas grossas a essa grave ocorrência, a esconder o fato, a tergiversar, quando o correto, o legal, seria esclarecer a opinião pública e revelar a verdade dos fatos.

Afinal, por que o governo do PT está fazendo isso? Por que transforma o Brasil num valhacouto de terroristas?

A reposta a essas indagações está contidas na própria reportagem da Folha: o governo do PT não quer a criação de uma legislação contra o terrorismo porque teme - vejam só - que criminalize os tais movimentos sociais. Neste caso está admitindo que esses bandos fora-da-lei são terroristas.

Ora, movimento social é um eufemismo que encobre aquilo que todo mundo conhece, ou seja, a existência de organizações paramilitares como o MST e seus satélites, que invadem propriedades, praticam quebra-quebra, promovem a desordem e prosseguem impunes sob o manto protetor do governo que através de ONGs transfere recursos públicos para financiar essas quadrilhas de porras-loucas, incentivados pelas viúvas da guerra fria.

E ninguém faz nada a não ser blogs como este que não se cansam de denunciar este estado de anarquia criado pelo petismo.

Sem uma lei dura contra o terror e com um governo que abençoa os terroristas e lhes dá refúgio, o petismo está avacalhando o País e expondo a população brasileira a uma situação de sério perigo e ameaça.

Desta forma o Brasil passa a representar um território que oferece todas as condições para ser o quartel-general do terrorismo.

Lula e seus petralhas enlouqueceram.

O petróleo não é nosso

A China fez o negócio da China e o Brasil papel de otário, no empréstimo de US$ 10 bilhões à Petrobras em troca de 200 mil barris/dia de petróleo por dez anos. Especialista respeitado, John Forman, ex-diretor da Agência Nacional de Petróleo, fez as contas: a China pagará US$ 2.739.726,02 por 200 mil barris/dia. Cada barril, hoje cotado em US$ 28,37 (valia US$ 138 há um ano), sairá pela merreca de US$ 13,70.

A Petrobras não comentou os cálculos de John Forman, ex-presidente da Nuclebrás e um dos maiores especialistas em energia do País.


MEU COMENTÁRIO: Enquanto isso os brasileiros continuam pagando o maior preço do mundo pelo litro da gasolina, bem como dos demais derivados do petróleo.

NUNCA ANTES NESTE PAÍS SE VIU TANTA SACANAGEM ASSIM.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Armas e Liberdade

Recentemente aconteceu algo em Buffalo, Nova York, que contradiz a propaganda daqueles que apóiam o "controle de armas" - isto é, o controle de cidadãos cumpridores da lei que desejam apenas ter uma arma para se proteger dos vários elementos nefastos deste mundo. Um cidadão de fato usou uma arma, uma espingarda, para defender sua casa e sua família de invasores armados. E, de acordo com a manchete, ele já havia sido vítima de outras invasões domiciliares.

Não, sua arma não lhe foi tomada e usada contra ele - essa seria a conseqüência inevitável de se possuir uma arma, dizem os defensores do desarmamento. Não, sua arma também não foi roubada. Não, ele não teve tempo de esperar pela polícia, não obstante esta tivesse chegado minutos depois, tendo também atirado nos invasores, ferindo um deles. Sim, ele foi capaz de pegar sua arma a tempo. Sim, ele apontou, mirou e acertou os alvos maléficos. De acordo com a propaganda desarmamentista, as pessoas raramente - quase nunca - usam armas para a auto-defesa.

O desarmamento é uma daquelas idéias que, na superfície, parecem fazer sentido; uma idéia a qual as pessoas sensatas inicialmente estão inclinadas a aceitar; uma idéia que parece oferecer uma solução fácil para um problema difícil. E esse é o problema com o controle de armas. Não passa de uma auto-ilusão, um pensamento baseado no desejo; é simplista, ingênuo e até mesmo infantil. É um pensamento tipicamente esquerdista: achar que problemas sociais podem ser resolvidos colocando-se palavras num papel e transformando-as em estatutos federais e estaduais.

Sempre que você ouvir que esse ou aquele tipo de arma foi banido, lembre-se que palavras escritas num papel jamais mudaram a natureza humana. Existem pessoas ruins lá fora que irão se aproveitar das pessoas boas. Elas não serão impedidas por palavras em um papel, seja onde for. As pessoas boas, por outro lado, desejosas de obedecer a lei, serão. E é por isso que assaltantes, estupradores e assassinos sabem que em paraísos desarmamentistas - isto é, qualquer lugar em que saibam que as potencias vítimas estão desarmadas - os cidadãos estão totalmente indefesos contra eles.

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Entrevista - Gustavo Chacra

Correspondente do Estadão no OM, Gustavo Chacra, fala sobre os desafios de cobrir a região com exclusividade para o De Olho Na Mídia. Entrevista realizada pela redatora do site, Mariana Ferreira.



Gustavo Chacra em Nablus: "Dizer que a imprensa é manipulada pelos judeus é uma tremenda bobagem"".




Em um café próximo à Avenida Paulista encontro Gustavo Chacra para esta entrevista para o “De Olho na Mídia”. Durante algumas horas de uma segunda-feira típica de outono conversamos sobre a experiência dele como correspondente internacional em vários países e também como é ser um especialista em Oriente Médio - sua grande paixão - com a dificuldade extra de nunca deixar de enxergar os dois lados. Gustavo Cerello Chacra tem 33 anos, e está fazendo Doutorado na Universidade Columbia em Nova Iorque, de onde escreve para o Estadão e para o Blog do Oriente Médio. Além de geminiano e torcedor do Palmeiras, Guga, como é chamado pelos amigos, é super inteligente e cheio de boas intenções. Leia mais

terça-feira, 26 de maio de 2009

Holocausto! Um projeto europeu?

Der Spiegel
Georg Bönisch, Jan Friedmann, Cordula Meyer, Michael Sontheimer, Klaus Wiegrefe

Os alemães são responsáveis pelo assassinato em escala industrial de 6 milhões de judeus. Mas, surpreendentemente, o conluio de outros países europeus no Holocausto recebeu pouca atenção até há pouco tempo. O julgamento de John Demjanjuk deverá projetar luz sobre os estrangeiros que ajudaram Hitler.

Ele já esteve na Alemanha antes, neste país de criminosos. Tinha 25 anos na época e seu nome de batismo era Ivan, e não John — ainda não.

Ivan Demjanjuk serviu como guarda no campo de concentração de Flossenburg até pouco depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Ele foi transferido para lá do campo da morte das SS em Sobibor, na atual Polônia. Era ucraniano, e um "travniki", um dos 5.000 homens que ajudaram o regime nazista da Alemanha a cometer o crime do milênio - o assassinato de todos os judeus da Europa, a "solução final".

"Onda de ultraje"

Matéria de "Der Spiegel" sobre europeus que colaboraram com o extermínio judeu de Hitler provocou reações na imprensa polonesa.



Ele fez parte do esquema, embora fosse uma peça muito pequena no vasto maquinário do crime. Ivan Demjanjuk ficou na Alemanha do pós-guerra durante sete anos antes de emigrar para os EUA em 1952 com sua mulher e filha a bordo do General Haan. Quando chegou lá, trocou o nome para John. Estava terminado seu tempo como suposto DP, ou "displaced person" (pessoa deslocada), como os vencedores anglo-americanos chamavam as pessoas que ficaram sem teto na guerra.

O DP Demjanjuk tinha vivido nas cidades de Landshut e Regensburg, no sul da Alemanha, onde trabalhou para o exército americano. Mudou-se para Ulm, Ellwangen, Bad Reichenhall e finalmente para Feldafing, junto ao lago Starnberg. Feldafing pertence à área coberta pelo tribunal distrital de Munique, e por isso Demjanjuk está detido na prisão de Stadelheim, em Munique, desde que foi deportado dos EUA, na semana passada. Sua cela mede 24 metros quadrados - extraordinariamente espaçosa para os padrões habituais de prisões.

Último grande julgamento nazista na Alemanha
Ele enfrenta acusações de ajudar e apoiar o assassinato de pelo menos 29 mil judeus em Sobibor. O julgamento poderá começar no final do verão, desde que Demjanjuk, hoje com 90 anos, seja considerado capaz de suportá-lo. Testemunhas serão chamadas a depor, mas nenhuma delas poderá identificá-lo. A única evidência está nos arquivos, mas é forte. Por duas vezes, em 1949 e 1979, o ex-travniki Ignat Danilchenko, hoje morto, afirmou que Demjanjuk foi um "guarda experiente e eficiente" que levou judeus para as câmaras de gás — "que era um trabalho cotidiano".

Demjanjuk negou a acusação totalmente. Ele diz que nunca esteve em Flossenburg ou em Sobibor, e nunca empurrou pessoas para as câmaras de gás. O ex-americano adotou a mesma tática de negação de muitos outros réus julgados por crimes de guerra desde 1945.

Mas já está claro que este último grande julgamento nazista na Alemanha será profundamente extraordinário, porque pela primeira vez colocará réus estrangeiros sob os refletores da mídia mundial.

São homens que até agora receberam, surpreendentemente, muito pouca atenção - policiais ucranianos e a polícia auxiliar da Letônia, soldados romenos ou trabalhadores ferroviários húngaros, agricultores poloneses, tabeliães holandeses, prefeitos franceses, ministros noruegueses, soldados italianos - todos participaram do Holocausto na Alemanha.
Especialistas como Dieter Pohl, do Instituto Alemão de História Contemporânea, estimam que mais de 200 mil não-alemães - quase o mesmo número de alemães e austríacos - "prepararam, praticaram e ajudaram em atos de assassinato". E com frequência eles foram tão impiedosos quanto os carrascos de Hitler.

Só para dar um exemplo, em 27 de junho de 1941, um coronel da equipe do Grupo do Exército Norte da Alemanha na cidade lituana de Kaunas passou por um posto de gasolina cercado por uma multidão. Ouviu gritos de bravo e aplausos, mães erguiam seus filhos para que enxergassem melhor. O oficial se aproximou e mais tarde descreveu o que havia visto. "No pátio de concreto havia um homem louro de cerca de 25 anos, de altura mediana, que estava descansando apoiado em um bastão de madeira grosso como seu braço e que chegava até seu peito. A seus pés havia 15 ou 20 pessoas mortas ou agonizantes. Uma mangueira jorrava água, levando o sangue para um ralo".

O soldado continuou: "Alguns passos atrás desse homem estavam cerca de 20 homens que - guardados por vários civis armados - esperavam sua terrível execução em silenciosa submissão. Chamado com um gesto rude, o próximo se adiantou em silêncio e foi (...) espancado até a morte com o bastão de madeira, e cada golpe era acompanhado de gritos entusiasmados da plateia".

Orgia de assassinatos como cerimônia nacional
Quando todos estavam mortos no chão, o assassino louro subiu no monte de cadáveres e tocou acordeão. Sua plateia cantou o hino lituano como se a orgia de assassinatos fosse uma cerimônia nacional.

Como semelhante coisa pôde acontecer? Há muito tempo essa pergunta não é dirigida somente aos alemães - cuja responsabilidade principal pelo horror é indiscutível -, mas também aos perpetradores de todos os países.
O que levou o ditador romeno Ion Antonescu e seus generais, soldados, funcionários públicos e agricultores a assassinar 200 mil judeus (e talvez até o dobro disso) "por sua própria decisão", como diz o historiador Armin Heinen? Por que os esquadrões da morte no Báltico cometeram assassinatos sob ordens de alemães na Letônia, Lituânia, Belarus e Ucrânia? E por que os Einsatzgruppen alemães - "grupos de intervenção" paramilitares operados pelas SS - tiveram tal facilidade para incentivar a população não-judia a cometer massacres entre Varsóvia e Minsk?

É totalmente indiscutível que o Holocausto nunca teria acontecido sem Hitler, o chefe das SS, Heinrich Himmler, e muitos, muitos outros alemães. Mas também é verdade "que os alemães por si sós não teriam conseguido efetuar o assassinato de milhões de judeus europeus", diz o historiador Michael Wild, estabelecido em Hamburgo.

É uma ideia da qual muitos sobreviventes nunca duvidaram. Quando a Associação de Sobreviventes Judeus Lituanos se reuniu em Munique em 1947, aprovou uma resolução com um título inconfundível: "Sobre a culpa de grande parte da população lituana pelo assassinato dos judeus lituanos".

No Terceiro Reich, com sua burocracia azeitada, havia registros abrangentes da população judia. Mas nos territórios conquistados pelo exército alemão os asseclas de Hitler precisavam de informação, como a que foi fornecida na Holanda pelos tabeliães, cujos funcionários tiveram muito trabalho para compilar um "Registro de Judeus" preciso.
E como as SS e a polícia poderiam rastrear judeus nas cidades do Leste Europeu, com sua ampla mistura de grupos étnicos, sem o apoio da população local? Poucos alemães seriam capazes de "reconhecer um judeu em uma multidão", lembra Thomas Blatt, um sobrevivente de Sobibor que pretende depor no julgamento de Demjanjuk.

Na época, Blatt era um menino louro e tentou se passar por cristão em sua casa na cidade de Izbica, na Polônia. Ele não usava a estrela amarela e tentava parecer confiante quando encontrava a polícia uniformizada. Mas foi traído várias vezes - os alemães pagavam por informações sobre a localização de judeus - e sempre escapou, com muita sorte.

Denúncias eram comuns
As denúncias eram tão comuns na Polônia que havia um termo especial para os informantes pagos - "Szmalcowniki", que antes designava uma cerca. Em muitos casos os delatores conheciam suas vítimas. E enquanto os franceses, holandeses ou belgas podiam se entregar à ilusão de que tudo acabaria bem para os judeus deportados de Paris, Roterdã ou Bruxelas para o leste, as populações do Leste Europeu sabiam o que aguardava os judeus em Auschwitz ou Treblinka.

É claro que se podem encontrar muitos exemplos inversos. Um alto oficial do Einsatzgruppe C, responsável pelo assassinato de mais de 100 mil pessoas, queixou-se de que os ucranianos não tinham "um antissemitismo acentuado, com base em motivos raciais ou ideológicos". O oficial escreveu que "há uma falta de liderança e de ímpeto espiritual para a perseguição dos judeus".

O historiador Feliks Tych estima que cerca de 125 mil poloneses salvaram judeus sem receber dinheiro por seus serviços. É claro que os criminosos sempre constituíram uma pequena porcentagem de suas respectivas populações. Mas os alemães contavam com essa minoria. As SS, a polícia e o exército não tinham efetivos suficientes para vasculhar as amplas áreas onde a liderança nazista pretendia matar todas as pessoas de origem judaica.

Nos 4.000 quilômetros que vão da Bretanha, no oeste da França, ao Cáucaso, os nazistas estavam ocupados em caçar suas vítimas, deportá-las para campos de extermínio ou locais de assassinato próximos, evitar fugas, cavar valas comuns e realizar seu sangrento trabalho.
É claro que somente Hitler e seu círculo ou o exército poderiam ter detido o Holocausto. Mas isto não invalida o argumento de que sem a ajuda de estrangeiros, milhares ou mesmo milhões dos cerca de 6 milhões de judeus assassinados poderiam ter sobrevivido.

Nos campos da morte do Leste Europeu havia até dez ajudantes locais para cada policial alemão. A proporção é semelhante nos campos de extermínio. Não em Auschwitz, que era conduzido quase inteiramente por alemães, mas em Belzec (600 mil mortos), Treblinka (900 mil mortos) ou no Sobibor de Demjanjuk. Lá, um punhado de membros das SS era auxiliado por cerca de 120 "travniki".

Sem eles, os alemães nunca teriam conseguido matar 250 mil judeus em Sobibor, diz o ex-prisioneiro Blatt. Eram os travniki que guardavam o campo, conduziam todos os judeus dos vagões de trem e caminhões quando chegavam ao campo e os agrediam para que entrassem nas câmaras de gás.

O Holocausto foi um projeto europeu?
Um número tão absurdo de vítimas levanta perguntas perturbadoras, e o historiador de Berlim Götz Aly já começou a fazer algumas anos atrás: a chamada "solução final" seria na verdade um "projeto europeu que não pode ser explicado somente pelas circunstâncias específicas da história alemã"?

Ainda não há um veredicto final sobre as dimensões europeias do Holocausto. Os franceses e italianos começaram tarde - quando a maioria dos criminosos já estava morta - a tratar de forma abrangente essa parte de sua história. Outros, como os ucranianos e lituanos, ainda se arrastam; ou, em alguns casos, apenas começaram, como na Romênia, na Hungria e na Polônia.

Desde 1945 os países invadidos e arrasados pelos exércitos de Hitler se consideraram vítimas - o que sem dúvida foram, com seu enorme número de mortos. Isso torna ainda mais doloroso admitir que muitos compatriotas ajudaram os criminosos alemães.

Na Letônia, a ajuda local foi maior que em qualquer outro lugar. Segundo o historiador americano Raul Hilberg, os letões tiveram a maior proporção de ajudantes nazistas. Os dinamarqueses estão na outra ponta da escala. Quando a deportação dos judeus da Dinamarca estava prestes a começar, em 1943, grande parte da população ajudou os judeus a escapar para a Suécia ou os escondeu. Cerca de 98% dos 7.500 judeus da Dinamarca sobreviveram à Segunda Guerra Mundial. Em comparação, apenas 9% dos judeus holandeses sobreviveram.

O Holocausto representa o ponto baixo não apenas da história alemã, mas também da europeia, como afirma o historiador Aly?

Há evidências que contestam a noção amplamente aceita de que os criminosos estrangeiros foram obrigados a ajudar os alemães a cometer os assassinatos. É verdade que os ajudantes locais arriscavam a vida quando se recusavam a ajudar os ocupantes alemães. Isso se aplicava às unidades policiais e aos funcionários públicos na Europa Ocidental ocupada, assim como à polícia auxiliar recém-formada no Leste. Mas também é verdade que em muitos lugares as pessoas se ofereciam para servir aos alemães ou participaram de crimes sem ser obrigadas a isso.

Também há a alegação muitas vezes repetida de que os governos de países aliados a Hitler não tinham opção senão entregar os cidadãos judeus aos alemães. Isso também não é verdade. Os países dos Bálcãs, em particular, rapidamente entenderam como a "solução da questão judia" era importante para Hitler e seus diplomatas - e tentaram obter o maior preço possível por sua cumplicidade.

Também há motivos para duvidar da suposição de que os auxiliares eram sádicos patológicos. Se isso fosse verdade, deveria ser fácil identificá-los, por exemplo, no grupo de 50 lituanos que serviram sob o comando do SS Obersturmbannführer (tenente-coronel) Joachim Hamann. Os homens percorriam aldeias até cinco vezes por semana para assassinar judeus, e acabaram matando 60 mil pessoas. Bastava algumas caixas de vodca para animá-los. À noite, a tropa voltava para Kaunas e se gabava de seus crimes no refeitório.

Nenhum dos lituanos havia sido criminoso antes. Eles eram "total e absolutamente normais", acredita o historiador Knut Stang. Em quase toda parte depois da guerra os assassinos retornaram a suas vidas habituais, como se nada tivesse acontecido. Demjanjuk também era um cidadão correto. Em Cleveland, Ohio, onde vivia, era considerado um bom colega e vizinho simpático.

É a mesma coisa com os criminosos alemães. Não há um tipo de assassino identificável - é uma conclusão perturbadora a que chegaram os historiadores. Os assassinos incluíam católicos e protestantes, europeus meridionais de sangue quente e frios bálticos, extremistas de direita obcecados ou burocratas insensíveis, acadêmicos refinados ou caipiras violentos.

Entre eles estava Viktor Arajs (1910-1988), um advogado culto de uma família de agricultores letões que comandou uma unidade de mais de mil homens que percorreu a Europa Oriental assassinando em nome dos nazistas. Ou o romeno Generaru, filho de um general e comandante do gueto de Bersad, na Ucrânia, que mandou amarrar uma de suas vítimas a uma motocicleta e a arrastou até a morte.

Antissemitismo assolava a Europa
E o antissemitismo? Na década de 1930 o antissemitismo cresceu em toda a Europa porque a comoção após a Primeira Guerra Mundial e a crise econômica global haviam abalado as pessoas. No Leste Europeu, a tendência a considerar os judeus como bodes expiatórios e tentar excluí-los do mercado de trabalho era especialmente forte. Na Hungria, os judeus foram banidos de cargos públicos no final dos anos 1930, e proibidos de trabalhar em muitas profissões. A Romênia adotou voluntariamente as Leis de Nuremberg, racistas e antissemitas, da Alemanha nazista. Na Polônia, muitas universidades restringiram o acesso de estudantes judeus.

A extensão do ódio aos judeus também se reflete no fato de que após o fim da guerra, em 1945, turbas na Polônia mataram pelo menos 600, e talvez milhares, de sobreviventes do Holocausto. No entanto, o excesso de nacionalismo parece ter sido o fator mais importante, pelo menos no Leste Europeu. Lá, muitos sonhavam com uma nação-estado livre de minorias. Nesse sentido, os judeus eram simplesmente um dos vários grupos de que as pessoas queriam se livrar. Com o avanço da Segunda Guerra, os croatas não apenas mataram judeus, mas também um número muito maior de sérvios. Os poloneses e lituanos se matavam entre si. A Romênia liquidou ciganos e ucranianos.

É difícil determinar o que motivou as pessoas a matar. Muitas vezes o nacionalismo ou o antissemitismo eram simples desculpas. Durante a guerra, ninguém passava fome na Alemanha, mas as condições de vida no Leste Europeu eram miseráveis. "Para os alemães, 300 judeus significavam 300 inimigos da humanidade. Para os lituanos significavam 300 pares de calças e 300 pares de botas", diz uma testemunha. Era cobiça em nível pessoal. Mas também aparecia em nível coletivo. Na França, 96% das empresas "arianizadas" permaneceram nas mãos de franceses. O governo húngaro usou os bens expropriados dos judeus para ampliar seu sistema de aposentadorias e reduzir a inflação.

Bodes expiatórios para crimes de soviéticos
A vingança imaginária também teve uma participação. Os massacres da população da Polônia contra os judeus em 1941 se basearam na suposição de que os judeus formavam uma espécie de base para o regime soviético, porque os comunistas de origem judia foram por algum tempo muito representativos na burocracia soviética. Em consequência, muitas pessoas culpavam os judeus pelos crimes cometidos durante a ocupação soviética do leste da Polônia entre 1939 e 1941.

A polícia secreta de Stálin, a NKWD, mandou fuzilar ou deportar para os "gulags" os adversários reais e supostos do regime nos países bálticos, no leste da Polônia e na Ucrânia. Com o avanço das tropas alemãs, os soviéticos deixaram para trás uma sociedade profundamente traumatizada entre o Báltico e os Cárpatos - e muitas covas coletivas.

Hitler não tinha decidido todos os detalhes do Holocausto desde o início, supondo que conseguiria expulsar todos os judeus de sua esfera de influência depois de uma rápida vitória contra a União Soviética. Mas o avanço alemão contra a URSS começou a vacilar no outono de 1941, o que levantou o problema do que fazer com as pessoas amontoadas nos guetos, especialmente na Polônia. Muitos Gauleiter, oficiais das SS e altos administradores pediam que seus territórios fosse "judenfrei" ("livre de judeus"), o que significava liquidá-los. A construção dos campos de extermínio começou por Belzec, depois Sobibor, depois Treblinka.

Curso de treinamento rápido em Holocausto
Foi um programa de matança gigantesco, em que a maioria dos judeus da Polônia, 1,75 milhão de pessoas, foram assassinados. Os SS preferiam recrutar seus ajudantes entre os ucranianos ou alemães étnicos nos campos de prisioneiros de guerra, onde soldados do Exército Vermelho como Demjanjuk enfrentavam a opção de matar para os alemães ou morrer de fome.

Mais tarde, números cada vez maiores de voluntários da Ucrânia ocidental e da Galícia [sudeste da Polônia] aderiram à unidade. Os homens tinham de assinar uma declaração de que nunca haviam pertencido a um grupo comunista e não tinham ancestrais judeus.

Depois eram levados para Travniki, no distrito de Lublin no sudeste da Polônia, onde eram treinados na profissão mortífera no local de uma antiga fábrica de açúcar. Em meados de 1943 cerca de 3.700 homens estavam estacionados em Travniki. O treinamento para o Holocausto levava várias semanas. Os homens das SS mostravam aos recrutas como realizar batidas e guardar os prisioneiros, muitas vezes usando sujeitos vivos. Então a unidade ia até uma cidade próxima e espancava moradores judeus e os arrancava de suas casas. Execuções eram realizadas em uma floresta próxima, provavelmente para garantir que os recrutas eram leais.

No início, os travniki foram usados para guardar propriedades e evitar o saque de depósitos de suprimentos. Depois seus amos alemães os enviaram para esvaziar os guetos em Lviv e Lublin, onde foram impiedosos na captura de suas vítimas judias. Finalmente eles foram postos para trabalhar em turnos de oito horas no campo de extermínio. "Todo mundo se colocava onde era necessário", lembrou um oficial das SS. Tudo funcionava "como um relógio".

Historiadores estimam que um terço dos travniki escapou, apesar da punição que sofreriam se fossem apanhados. Alguns foram executados por desobediência. E os outros? Por que não tentaram escapar da máquina mortífera? Por que Demjanjuk não tentou? Ele teria sido corrompido pela sensação de ter "obtido um poder total sobre os outros", como afirma o historiador Pohl? Seria a perspectiva do saque? Em Belzec e Sobibor os travniki se envolveram em um comércio animado com os habitantes das aldeias vizinhas, e lhes pagavam com objetos que haviam subtraído dos prisioneiros.

Talvez houvesse outra coisa, algo ainda mais perturbador que muitas pessoas têm no fundo de sua psique: acatar ordens das autoridades, mesmo contrariando sua consciência. A obediência total e irrestrita.

Ajuda de fora no monstruoso projeto assassino
As tropas alemãs não tiveram toda a Europa continental sob suas armas na mesma medida. Fora do Terceiro Reich e dos territórios ocupados, os alemães precisaram da ajuda de governos estrangeiros em seu projeto assassino monstruoso - no oeste assim como no sul e sudeste da Europa.

Seu apoio foi mais forte entre os eslovacos e os croatas, a quem Hitler deu estados próprios. Os croatas fascistas do regime Ustasha montaram seus próprios campos de concentração onde os judeus foram mortos "de febre tifóide, fome, tiros, tortura, afogamento, punhaladas e golpes de martelo na cabeça", segundo o historiador Hilberg. A maioria dos judeus da Croácia foi morta por croatas.

O antissemitismo não estava tão enraizado na Itália e foi ordenado pelo estado em consideração aos alemães. Um comandante militar italiano em Mostar (atual Bósnia) se recusou a expulsar os judeus de suas casas porque essas operações "não estavam de acordo com a honra do exército italiano". Esse não foi o único caso. Mas está claro que o governo fantoche de Benito Mussolini de 1943 participou avidamente da perseguição aos judeus. Mais de 9 mil judeus italianos foram deportados para a morte.

Cerca de 29 mil judeus da Bélgica foram assassinados, muitos deles denunciados em troca de dinheiro. Denúncias também aconteceram na Holanda e na França. As autoridades locais obedientemente abriram caminho para a deportação dos judeus e mais tarde disseram que não suspeitavam do destino que os aguardava. Essa desculpa foi usada por asseclas, oportunistas e burocratas - uma categoria de criminosos que foi negada por muito tempo após a guerra na França, enquanto o país tentava construir o mito de que toda a população francesa se envolvera na heroica Resistência.

A França ficou dividida em duas. As tropas de Hitler tinham ocupado três quintos do país, mas o sul continuou desocupado até novembro de 1942 e foi governado por um regime de direita baseado em Vichy que colaborou com os alemães.

Quantos foram traídos?
A primeira grande captura de judeus ocorreu em meados de julho de 1942 na Paris ocupada, quando quase 13 mil judeus que não tinham passaporte francês foram tirados de suas casas pela polícia local. Pelo menos dois terços dos judeus deportados da França eram estrangeiros. Os restantes consistiam em cidadãos franceses naturalizados e crianças nascidas na França filhas de judeus apátridas. A polícia "expressou repetidamente o desejo" de que as crianças também fossem deportadas, anotou um oficial das SS em julho de 1942. Quase todos os deportados acabaram em Auschwitz.

Ao todo, quase 76 mil judeus foram deportados da França e somente 3% deles sobreviveram ao Holocausto. Não se sabe quantos foram delatados pela população local. Na Holanda há um número que dá um indício da extensão das denúncias. O país tinha uma autoridade que caçava judeus em nome dos nazistas e que listava as propriedades de judeus que estavam escondidos ou já tinham sido deportados.

O "departamento de registro de bens domésticos" pagava 7,50 florins por judeu que fosse localizado - cerca de 40 euros em valores atuais. O jornalista holandês Ad van Liempt analisou registros históricos e estimou que somente entre março e junho de 1943 mais de 6.800 judeus foram identificados dessa forma, e que pelo menos 54 pessoas participaram dessa caçada uma ou várias vezes. "A maioria delas fez dessa sua ocupação principal durante meses", ele diz.

O chefe da unidade era um mecânico de carros chamado Wim Henneicke, que evidentemente tinha boas conexões no submundo de Amsterdã. Ele montou uma extensa rede de informantes que lhe diziam onde havia judeus escondidos. Cerca de 100 mil judeus da Holanda foram assassinados em campos de concentração, uma proporção muito maior que na Bélgica ou na França.

No entanto, em comparação com a França, os colaboradores holandeses foram rapidamente punidos depois da guerra. Cerca de 16 mil foram julgados até 1951, e quase todos, condenados.

Demjanjuk é uma categoria diferente de criminoso. Ele não é um colaborador ou um caçador de cabeças, nem um policial ou o tipo que contribuiu para o Holocausto longe da matança real. Ele estava em cena, dizem os promotores em seu mandado de prisão minucioso.

O mundo terrível dos auxiliares do Holocausto
Nos próximos dias médicos vão decidir se e por quanto tempo o último capanga de Hitler em Sobibor pode ser julgado. O governo alemão quer que ele enfrente o tribunal. "Devemos isso às vítimas do Holocausto", disse o vice-chanceler Frank-Walter Steinmeier.

Os que sofreram nos campos sob travniki como Demjanjuk não têm qualquer desejo de vingança quando falam sobre isso hoje. O psicanalista americano Jack Terry, que esteve preso no campo de concentração de Flossenburg quando Demjanjuk era guarda lá, diz que bastaria que Demjanjuk "tivesse de passar apenas um dia trancado em sua cela".
O sobrevivente de Sobibor Thomas Blatt diz que "não se importa que ele vá para a prisão; o julgamento é importante para mim. Eu quero a verdade".

Demjanjuk poderá dar informações sobre Sobibor - e sobre o terrível mundo dos ajudantes do Holocausto.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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