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quinta-feira, 4 de junho de 2009

As chaves de plástico

Quando Freud publicou suas pesquisas sobre a compulsão à morte provocou surpresa e até rejeição. Ele se referia ao que não é muito evidente na complexa fisiologia mental e oferecia inúmeras provas sobre suas descobertas.

Atualmente, a humanidade ainda não percebeu que a compulsão à morte, ainda que seja universal, infectou profundamente o Irã.

Na guerra do Iraque e Irã, o aiatolá Khomeini faz uma estranha compra em Taiwan: 500.000 chaves de plástico. Saddan Hussein tinha se aproveitado do fato de que a revolução islâmica no Irã passava por um difícil começo e, atacou esse país, que estava em grande desvantagem. Khomeini decidiu. então, enviar à frente legiões de crianças, muitas das quais só tinham doze anos. Ordenou que a cada uma fosse colocada no pescoço uma chave de plástico, com a qual iriam abrir as portas do paraíso.

Uma das tarefas mais crués que se lhes determinaram foi limpar estradas e campos minados pelas tropas de Saddam Hussein. Os meninos avançavam, fazendo-as explodir com seus corpos. Assim, depois os soldados podiam entrar, com segurança.

O diário semi-oficial iraniano Ettelaat comenta que os meninos, entre 12 e 17 anos íam aos campos minados e logo depois, se viam nuvens de poeira.

Estas crianças pertenciam aos Basiji Mostazafan(Mobilizaçao dos Oprimidos), organização criada por Khomeini e da qual o atual presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, é um instrutor. Os Basiji superam a arrepiante Juventude Hitlerista por seu fanático amor à morte. É uma milícia de centenas de milhares de voluntários dispostos a ir com júbilo até sua própria destruição.

Antes de usar crianças, Khomeini até tentou usar burros e cavalos. Mas os burros e cavalos fugiam aterrorizados através dos campos.

Atualmete, os Basiji incorporam também gente de mais idade. Agora são usados como forças de choque contra qualquer protesto antigovernamental. Muitos desses adultos, com mais de 45 anos, são analfabetos e sem preparo militar. A única coisa que aprendem é a glória do martírio. Cada um possui uma faixa vermelho-sangue, que exibe a vontade de morrer. Eles foram utilizados contra os levantes estudantis de 1999 e 2003.

A tática empregada pelos Basiji na guerra é o ataque por ondas. Avançam contra o inimigo em cerradas formações. Não importa se receberão balas, granadas ou bombas, ou se voarão com a explosão de uma mina. O que importa é avançar sempre, em ondas, pisando o resto de companheiros que caíram. Com a queda das tropas inimigas, os guardas revolucionárias avançam. Nos três primeiros anos dessa guerra que durou oito, calcula-se que 450.000 crianças foram enviadas à frente de batalha.

Khomeini dizia que para acelerar o retorno de Mahdi(equivalente ao Messias dos judeus ou a segunda vinda de Cristo para os cristãos) é preciso lutar ferozmente contra o mal, que é a modernidade, com seus direitos individuais, a sensualidade, o pensamento racional paralelo à fé e o inaceitável pluralismo de idéias.

Em novembro de 2006, o presidente Ahmadinejad promoveu a Semana Basiji. Os dados assinalam que cerca de 9 milhões de Basiji, 12% da população, se manifestou a favor do presidente. Ele até proibiu música clássica nas emissoras oficiais, por considerá-la imoral. Sua posição apocalíptica foi mostrada numa entrevista pela TV, quando declarou que não há nada mais belo do que o martírio.

Cenas de guerra

Guerra é uma coisa muito séria. Não é para brincadeira. Pois eu tenho uma história para lhes contar, que poderia ser folclórica – e até cômica. Aconteceu na chamada Guerra do Golfo. Na verdade, essa não foi bem uma guerra, que exige duas facções combatentes.


Naquela época, o Presidente do Iraque, Sadam Hussein (que depois foi condenado e enforcado por crimes de guerra) resolveu atacar Israel, que, por seu lado, decidiu não reagir e manteve-se totalmente passivo. A ameaça era grande e o susto, maior ainda. É que a população foi advertida que o referido ditador ameaçava disparar foguetes contra Israel dotados de ogivas que poderiam conter produtos químicos venenosos. Daí ter havido uma distribuição de máscara contra gás a todos os habitantes, de todas as idades.


As autoridades publicaram instruções sobre como colocar a máscara e, em caso de necessidade, havia uma injeção especial a ser aplicada. Havia máscaras específicas para gente de barba e crianças. Também foram dadas claríssimas instruções de como proceder em caso de ataque, por exemplo: a partir do momento em que tocava a sirene, havia um prazo de em média 2 minutos (conforme a localidade) para correr até o abrigo anti-aéreo, fechar hermeticamente as portas e colocar a máscara.


Durante mais de um mês todo mundo andava com uma caixinha de papelão pendurada no braço, contendo a tal máscara, e de ouvidos atentos ao que poderia acontecer. E aconteceram coisas dignas de registro. Ficará gravada na memória de todos a inesquecível cena, transmitida pela televisão, em que o público que lotava a sala de concertos para ouvir a Orquestra Sinfônica de Israel, no momento em que tocou a sirene estava todo ele com as máscaras devidamente colocadas. Ninguém fugiu, ninguém correu para um abrigo, e ficaram ali, gostosamente sentados, devidamente mascarados. O solista era Isaac Stern, que desprezou a máscara!


Também durante mais de um mês Israel foi bombardeada por mais de 30 foguetes, que fizeram muito barulho, deixando a população em um alerta permanente, causando danos materiais muito limitados e, felizmente, quase que nenhuma vítima, e não como resultado direto dos foguetes. Quem não tinha abrigo antiaéreo, deveria escolher um lugar o mais protegido de sua residência e vedá-lo com folhas de plástico, que deveriam, além das máscaras, impedir a contaminação pelas ameaçadoras armas químicas que, afinal, nunca chegaram.


Bom cidadão que sou, segui rigorosamente as instruções recebidas. Arrumei o abrigo que tenho em minha residência e lá coloquei um rádio portátil para ouvir os avisos caso um foguete tivesse sido disparado. Lá eu tinha armazenado água, alguns alimentos, material de leitura, medicamentos de emergência e uma garrafa de bom uísque, para o que der e vier. Havia até um colchão para dar uma estirada. Do meu abrigo, cheguei a dar algumas entrevistas por telefone para o Zevi Ghivelder, da saudosa Manchete.


No meu escritório, a coisa era mais complicada. Não tínhamos no edifício abrigo antiaéreo e, após analisar a situação logística do escritório, chegamos à conclusão de que o lugar mais protegido era o toalete. Após ali instalar a devida cortina de plástico na porta, como o lugar era muito exíguo colocamos duas cadeiras dentro da banheira. Estava eu arrumando uns livros numa prateleira de metal, quando tocou a sirene, o que era sempre assustador, e, afobado, bati a cabeça no canto da estante e sofri um ferimento superficial, mas que sangrou bastante. Aí corremos, eu e minha mulher, rápido para o toalete.


Fechamos bem a cortina de plástico pelo lado de dentro com fitas adesivas, colocamos as máscaras, entramos na banheira, onde havíamos colocado previamente as duas cadeiras, e sentamos um frente ao outro. Nos olhamos e ambos caímos numa gargalhada ininterrupta de alguns minutos, porque não poderia haver uma cena mais cômica do que esta: dois advogados adultos sentados numa banheira, mascarados, aguardando a caída de uma bomba.


Alguns minutos depois foi dado o sinal de “tudo bem”. Tiramos as máscaras, tratei meu “ferimento de guerra” e, ato seguinte, voltamos ao nosso trabalho normal no escritório. Nessa normalidade, não fomos exceção. Durante todo o período daquela guerra, a vida em todo o país continuou normal: cinemas e teatros funcionavam, os restaurantes estavam cheios, as pessoas se telefonavam após a caída de cada foguete para saber “…se caiu perto de você e o que você ouviu…”.


Sempre que me recordo do acontecido em meu escritório, e conto a história, ela provoca boas risadas; mas não se iluda o leitor, e pense que aquela guerra foi uma brincadeira. Longe disto! Como todas as guerras, foi uma coisa muito séria.


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Marcos Wasserman é advogado em Israel, Brasil e Portugal, e é presidente do Centro Cultural Israel-Brasil

Como desaparecem os aviões



Especialistas em aviação tiveram dificuldades para explicar o desaparecimento nesta semana do jato da Air France que fazia a rota Rio-Paris com 228 pessoas a bordo e provavelmente caiu no Atlântico.


Não houve mensagens de socorro nem a emissão de sinais automáticos de emergência.

Os aviões "sabem" onde estão, mas não necessariamente passam essa informação quando estão em locais remotos, fora do alcance do controle de tráfego aéreo, devido a questões tecnológicas e regulatórias, segundo especialistas.



quarta-feira, 3 de junho de 2009

Avião voava abaixo da altitude prevista

Os pilotos do AF 447 não seguiam a altitude prevista em seu plano de voo quando a aeronave foi registrada pela última vez pelo radar de Fernando de Noronha, às 22h48 (horário de Brasília) do domingo, revela reportagem de Alan Gripp e Igor Gielow na edição desta quarta-feira da Folha (íntegra disponível para assinantes do UOL e do jornal).

O voo 447 da Air France desapareceu sobre o oceano Atlântico na noite de domingo (31), com 228 pessoas a bordo. O avião decolou por volta das 19h do aeroporto Tom Jobim, no Rio, com destino a Paris e fez o último contato com o comando aéreo brasileiro por volta das 22h30.


Leia a cobertura completa sobre o voo AF 447
Veja nomes de passageiros que estavam no avião da Air France
Veja onde conseguir informações sobre o voo


Elaborado antes da decolagem, o plano de voo previa que o Airbus deveria subir de 35 mil pés (10,7 km) para 37 mil pés (11,3 km) depois de passar pelo ponto virtual Intol (565 km ao norte de Natal). O avião, porém, se manteve a 35 mil pés à frente do ponto, segundo informou a FAB no dia do acidente. O motivo para isso é desconhecido.


Os pilotos muitas vezes têm de alterar sua rota devido a mau tempo, turbulências ou porque voos diferentes têm planos coincidentes. "O plano é elaborado com o objetivo de que o voo seja o mais eficiente possível, mas nem todo mundo pode voar na mesma rota", diz o diretor da Azul e ex-presidente da Associação Brasileira de Aviação Geral, Adalberto Febeliano.


Após deixar a área de controle de Noronha, o que havia à frente do voo AF 447 era uma grande tempestade. A própria FAB havia alertado, em sua rede de meteorologia na internet, que a tempestade era forte e tinha seu topo variando entre 37 mil e 38 mil pés (11,6 km), ou seja, acima do nível em que o Airbus estava quando deixou a cobertura de radar brasileira (35 mil pés).


Panes e turbulência


Não há hipóteses claras sobre o que pode ter derrubado a aeronave, mas já há certeza de que o avião sofreu despressurização e uma pane elétrica, porque a aeronave enviou alerta automático do tipo durante o voo. Sabe-se também que a aeronave enfrentou forte turbulência.


A FAB (Força Aérea Brasileira) informou na noite desta terça-feira que dois investigadores franceses já estão no Brasil para apurar as causas do acidente, com apoio do Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos).


Durante o dia, foram encontrados destroços da aeronave em uma área a aproximadamente 400 milhas (cerca de 740 km) de Noronha. Aeronaves equipadas com radares e infravermelho devem manter as buscas durante toda a madrugada para tentar encontrar mais material do Airbus.


Segundo o ministro Nelson Jobim (Defesa), os destroços são indicativo certo de que o avião caiu no mar. "Para este efeito [o da identificação do avião] já é suficiente estes 5 km de materiais. Não há como supor que a maré tenha reunido 5 km de material trazido da praia", disse.


Jobim afirmou que as buscas devem se concentrar sobre a caixa-preta, que pode estar situada em uma "profundidade que varia entre 2.000 e 3.000 metros" no oceano Atlântico. "A caixa-preta não boia. Teremos que fazer a busca. Estando em grande profundidade, haverá grande dificuldade para encontrá-la", disse.


Segundo a Air France, a lista oficial com os nomes dos ocupantes do avião deve ser divulgada nesta quarta-feira (3). Porém, a relação pode ser incompleta já que, segundo o ministro da Defesa, alguns familiares de passageiros já manifestaram os nomes não sejam divulgados.


De acordo com a empresa, 58 brasileiros, 61 franceses e 26 alemães estavam na aeronave. Ao todo, havia ocupantes de 32 nacionalidades no avião.



Arte Folha Online

segunda-feira, 1 de junho de 2009

A lei da Torah

Conheça alguns dos hábitos dos judeus ortodoxos paulistanos, que representam 15% da comunidade na capital e são personagens de um núcleo da novela Caras & Bocas, da Rede Globo

Por João Batista Jr. e Sara Duarte

| 03.06.2009

Fotos Fernando Moraes e João Miguel Jr./divulgação TV Globo
Ritual noturno na sinagoga Talmud Thorá Lubavitch, no Bom Retiro, e a família judaica da trama de Walcyr Carrasco (no detalhe): cultura milenar

É uma cena comum em qualquer sábado, no frio ou no calor, com sol ou com chuva: homens de barba longa, vestindo capote preto e com a cabeça coberta por chapéu ou quipá, acompanhados por mulheres de saia comprida e levando os filhos pelas mãos circulam pelas ruas de bairros como Higienópolis, Jardins e Bom Retiro. O jovem joalheiro Benjamin, personagem da novela global Caras & Bocas interpretado pelo ator Sidney Sampaio, poderia estar entre eles. Isso porque a trama de Walcyr Carrasco apresenta o cotidiano de um clã paulistano que cumpre ao pé da letra os mandamentos da Torá, o livro sagrado do judaísmo - sendo o principal deles o respeito ao Shabat, período de orações e descanso que vai do pôr do sol de sexta ao início da noite seguinte. "As pessoas nos veem mais pelas ruas nesse dia porque não usamos carros, uma vez que é proibido gerar qualquer tipo de energia", diz o rabino Shie Pasternak, da sinagoga Talmud Thorá Lubavitch, no Bom Retiro. Para Carrasco, cronista de VEJA SÃO PAULO, o folhetim retrata a cultura de um povo que ajuda a formar a diversidade da capital. "Costumamos achar que nossos valores são os únicos corretos e verdadeiros", afirma. "Mas os judeus ortodoxos mostram que há outros caminhos para a felicidade."



Embora formem apenas 15% da comunidade judaica da cidade, estimada em 60 000 pessoas, os ortodoxos representam sua face mais visível, por carregar no rosto e no vestuário as marcas da fé. Para viver o personagem, Sampaio visitou sinagogas e teve aulas de cabala e hebraico. "Aprendi que eles são um povo que dá provas diárias de disciplina e devoção", conta. Mas nem todo ortodoxo usa roupa escura, barba e peiot, os tais cachinhos laterais, como os que aparecem na novela. Na verdade, essas características estão relacionadas exclusivamente aos hassídicos, uma vertente do ramo asquenazita, originária da Europa Central e Oriental. Há ainda os sefarditas, vindos da Península Ibérica e do norte da África, e os orientais (da região da antiga Babilônia, atual Iraque), com aparência e rituais diferentes. O que os qualifica como observantes, como são igualmente denominados os ortodoxos, é o fato de se disporem a cumprir tanto as leis da Torá quanto as do Talmude, outro livro sagrado do judaísmo. Entre essas regras, estão as que se referem à relação homem-mulher. A separação de sexos começa na escola e se estende por todos os ambientes sociais - namoros e até mesmo apertos de mão são proibidos. Em nome do recato, as ortodoxas têm de usar roupas que escondam o colo, os joelhos e os cotovelos. As casadas cobrem os cabelos com peruca. Durante as rezas na sinagoga, eles se sentam perto do altar, enquanto elas ocupam um recinto à parte, separado por um biombo. "Essas normas servem para protegê-las, pois os homens são criaturas fracas, passíveis de ser distraídas", argumenta o rabino Shabsi Alpern, da sinagoga Beit Chabad Central, nos Jardins.



Judeus ortodoxos não podem nem apertar o botão do elevador durante o Shabat. Por isso, nos últimos quinze anos, cerca de vinte edifícios residenciais da cidade, a maioria em Higienópolis, ganharam os chamados elevadores-shabat. "Eles são programados para parar em todos os andares e ficar abertos por alguns segundos para dar tempo de as pessoas entrarem e seguirem até o piso desejado sem ter de mover um dedo", diz José Luís Mundim Soares, responsável por novas instalações da Atlas Schindler. Considerados guardiões de sua tradição, os ortodoxos têm trabalhado para renovar a religião na cidade. Segundo a Federação Israelita do Estado de São Paulo, em vinte anos o número de sinagogas paulistanas passou de 25 para 55. Dessas, catorze são do movimento Chabad-Lubavitch, vertente nascida na Europa, no século XVIII, que deu origem ao hassidismo e revitalizou a ortodoxia ao enviar emissários a diversos países com o objetivo de divulgar sua filosofia. Com a terceira maior população judaica das Américas - atrás apenas de Nova York, com 1,6 milhão de adeptos, e de Buenos Aires, com 165 000 - , a capital paulista hoje registra a presença de templos e casas de oração em bairros sem raízes hebraicas, como Vila Mariana, Morumbi, Perdizes, Pompeia, Pinheiros, Brooklin e Itaim Bibi. "Os ortodoxos se esforçam para atrair jovens que nasceram na comunidade mas não cumprem os rituais", afirma a antropóloga Marta Topel, professora da Universidade de São Paulo e autora do livro Jerusalém & São Paulo: a Nova Ortodoxia Judaica em Cena. "Desde os anos 80, rabinos dos Estados Unidos e de Israel têm vindo para o Brasil trabalhar nesse processo que eles chamam de retorno ao verdadeiro judaísmo."



É o caso do rabino Nathan Ruben Silberstein, de 36 anos. Nascido em Nova York, ele chegou a São Paulo em 1993, acompanhado de sua mulher, Hani, e constituiu uma família numerosa: o casal tem oito filhos, de 2 a 16 anos. As crianças frequentam escolas religiosas em período integral e, em casa, comunicam-se em iídiche e hebraico. Sem acesso à TV nem à internet, recorrem a amigos para acompanhar os jogos do time do coração, o São Paulo. Embora viva em Higienópolis, Silberstein decidiu abrir uma sinagoga em Moema. "Para atrair aqueles que não tiveram educação religiosa efetiva, é preciso sair do nosso reduto e buscar fiéis em outros bairros", explica. "É claro que ninguém precisa ter uma vida regrada como a nossa, mas ir à sinagoga já é um bom começo."



Atividades culturais também fazem parte desse processo de aproximação. O Espaço K, em Higienópolis, reúne mais de 2 000 associados com programas convidativos como palestras em faculdades, rodadas de pizza, baladas e viagens. A maioria deles não é ortodoxa, já terminou os estudos e sentia falta de um lugar para encontrar pessoas que compartilham a mesma crença. Já o Centro Novo Horizonte, no mesmo bairro, que concentra seu foco nas crianças e em suas mães, promove cursos de culinária e música. A maior parte dessas instituições é financiada por empresários judeus filantropos. "Para que a religião tenha continuidade, precisamos ajudar aqueles que propagam nossas tradições", diz Meyer Nigri, proprietário da construtora Tecnisa. Ele calcula já ter contribuído para a construção de dez sinagogas e ajuda a custear despesas de rabinos, cujos salários, estimados entre 5 000 e 20 000 reais, seriam insuficientes para alimentar e pagar boas escolas a famílias numerosas. "É nosso dever auxiliar quem dedica a vida a atividades religiosas e educacionais", comenta Ivo Rosset, presidente do Grupo Rosset, que contribui para escolas e ONGs judaicas. A família Safra, por sua vez, banca 100% das atividades de uma sinagoga em Higienópolis e outra na Consolação, além de ajudar na manutenção de algumas instituições. Esther, filha de Joseph e Vicky Safra, por exemplo, é diretora e mantenedora da escola Beit Yaacov, na Barra Funda.



Uma prática comum entre os empresários é patrocinar a instalação de restaurantes kosher (do hebraico, permitido), dieta que, entre suas regras, proíbe o consumo de carne de porco e frutos do mar e a mistura de laticínios com qualquer tipo de carne. Há um ano, um grupo de judeus praticantes procurou o chef Daniel Marciano, dono do restaurante Nur, em Higienópolis, com a proposta de adaptar o menu de seu estabelecimento às regras da religião. Eles pagaram a reforma e os utensílios, mais o salário de um supervisor. "O movimento da casa triplicou e eu fiquei tão animado que abri uma rotisseria kosher", comemora Marciano. A crescente demanda por esse tipo de culinária explica o sucesso do McKosher, evento realizado anualmente pelo McDonald’s em parceria com a Con-gregação Monte Sinai. Na ocasião, o menu da rede é preparado segundo os preceitos kosher. O último evento, ocorrido em abril, na lanchonete da Avenida Ermano Marchetti, na Lapa, reuniu 4 500 pessoas e nele foram vendidos 7 000 sanduíches - um movimento 200% superior ao de um domingo comum. "Algumas pessoas compram mais de cinquenta sanduíches para congelar e consumir depois", revela Pedro Palatnik, ge-rente de relações institucionais do McDonald’s. Esse sucesso, aliás, fez com que a rede aceitasse repetir o cardápio em mais quatro domingos de maio na unidade que fica na esquina da Alameda Santos com a Rua Augusta, nos Jardins. "Agora vamos propor à rede que tenha um corner kosher no Shopping Higienópolis", conta Selim Nigri, presidente da Congregação Monte Sinai. Será, com certeza, um bom negócio para todos.



Fotos Fernando Moraes

Nas escolas ortodoxas, pelo menos 50% do conteúdo é lecionado em hebraico, e meninos e meninas frequentam espaços separados. No colégio Iavne, nos Jardins, fundado em 1946 por imigrantes húngaros e poloneses, o uniforme das garotas é composto de saia longa de algodão. Por motivo de praticidade, nas aulas de educação física elas usam calças corsário. "Mas isso só porque a quadra é coberta e não existe o risco de alguém de fora da classe nos ver", explica Karen Rosemberg, 14 anos. Corintiana roxa e fã de Ronaldo, na escola ela é artilheira dos times de futebol e handebol femininos. Não vislumbra, porém, uma carreira no esporte. "Seria impossível me destacar, pois não poderia jogar nem treinar aos sábados."



Morador de Higienópolis, o rabino Nathan Ruben Silberstein (no centro) abriu uma sinagoga em Moema para atrair os judeus do bairro, que não tinham nenhum templo. Ele e a mulher, Hani, nasceram nos Estados Unidos, têm 36 anos e são ortodoxos da linha hassídica. Seus oito filhos - da esquerda para a direita, Jaime, de 12 anos, Re-beca, 10, Jacob, 15, Malka, 4, Joel, 13, Sara, 8, Moisés, 2, e Isaac, 16 - só se comunicam em iídiche e hebraico em casa.



Os ortodoxos só comem comida kosher, preparada sob a supervisão de rabinos. Para atender à comunidade, uma vez por ano o McDonald’s realiza o Dia Kosher, em que seu cardápio segue os preceitos judaicos. Amanda Stulman (à dir.), 27 anos, reuniu toda sua família - três filhos, mãe, irmão e marido - para ir à terceira edição do evento. "Venho todo ano aqui e peço o mesmo sanduíche: Big Mac", diz ela, que é professora da pré-escola do colégio Gani Talmud Thorá, no Bom Retiro. As crianças, Meyr (à esq.), Chaya e Yossi (à dir.), experimentaram o McLanche Feliz. "Mas o hambúrguer veio sem queijo, porque não misturamos carne e laticínios na mesma refeição", conta Amanda.



Em nome do recato, as ortodoxas têm de usar roupas que cubram os joelhos, os cotovelos e o colo. Prestes a se casar, Tisipi Eskinazi (à dir.), 17 anos, recorreu à estilista Esther Bauman para criar um vestido de noiva de renda e saia plissada com essas características. As futuras cunhadas, Dina Schildkraut e Miralle Mazuz (sentada), ajudaram a aprovar o modelo. "Ninguém precisa abrir mão da vaidade por ser religiosa", comenta Tisipi.


Depois de casadas, as judias ortodoxas cobrem os cabelos com uma peruca, que só pode ser retirada na intimidade, diante do marido. Casada com um rabino, Yaffie Begun (com sua filha Feiga, de 1 ano, no colo) fabrica modelos com fios naturais, que são vendidos por 1 000 dólares cada um. Mãe também de Nina, 12 anos, e Chaya, 18, ela as ensinou a ter orgulho desse acessório. "Para nós, ortodoxas, é como usar uma coroa: indica que somos realizadas por termos nos tornado esposas e mães."



Aos 28 anos, o rabino Moishy Libersohn (sentado) dirige o Espaço K, instituição que realiza palestras em faculdades, viagens e atividades culturais para atrair jovens de volta à religião. O local também é conhecido como uma balada judaica e ajudou a formar casais como Irina e Beny Schuchman (à esq.) e Daniel e Patrícia Olszewer (à dir.). "Depois que saem da escola, eles não têm mais onde encontrar seus pares", diz o rabino. "A gente dá uma forcinha."




ser judeu ortodoxo é...

...se dispor a seguir os mandamentos da Torá e do Talmude, livros sagrados do judaísmo. Eis os principais:



Rezar ao menos três vezes por dia: pela manhã, antes do pôr do sol e quando as primeiras estrelas começam a despontar no horizonte



Respeitar o Shabat, o período de descanso e oração que começa no pôr do sol de sexta-feira e se estende até o início da noite de sábado



Cumprir o mandamento bíblico "Crescei e multiplicai-vos". Métodos contraceptivos só podem ser usados com permissão do rabino



Ingerir somente comida kosher, preparada com a supervisão de rabinos, segundo regras específicas, como jamais misturar carne com laticínios na mesma refeição



Manter espaços separados para homens e mulheres nas sinagogas



Jamais tocar em uma mulher que não a sua, nem mesmo com um aperto de mãos



Manter nas portas das casas, escritórios e escolas um mezuzá, invólucro com trechos da Torá, que deve ser tocado ao entrar e ao sair



Aceitar regras de recato como a que proíbe o namoro.Garotos e garotas podem sair para se conhecer, mas só devem se beijar ou se tocar após o casamento



>>vídeo: saiba mais sobre a alimentação kosher

Fontes: Cecilia Ben David, coordenadora pedagógica do Centro de Cultura Judaica; David Azulay, rabino da Congregação Monte Sinai; Marta Topel, pesquisadora de cultura judaica da Universidade de São Paulo; e Shie Pasternak, rabino da sinagoga Talmud Thorá Lubavitch

Acidente Aéreo

Hoje, infelizmente se soube de mais um acidente aéreo, não existe confirmação ainda.
Um airbus da Air France desapareceu no oceano atlântico com mais de 200 pessoas a bordo.
Cada vez que isso acontece sobe o interêsse por desastres aéreos. O Politica Geral disponibiliza um link para você saber mais. Infelizmente a vida é feita de morte também.

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